sábado, 12 de outubro de 2013

Governança corporativa: das raízes à evolução em anos recentes

A expressão corporate governance surgiu no inicio dos anos 1990, nos Estados Unidos e logo também migrou para o Canadá e Reino Unido, de onde foram os pilares dos três primeiros códigos da boa governança.
Comparativamente a outras concepções estruturais de gestão, a governança corporativa é bastante recente, mas suas raízes históricas são remotas. Surgem com as “companhias licenciadas de comércio” dos séculos XVI e XVII, que se estabeleceram na forma de sociedades por ações, aglutinando grande número de rentistas para sua constituição. Essas companhias uniram investidores e administradores, com o objetivo permanente de maximização de retornos sobre o capital investido. As diretrizes eram definidas em assembleias gerais, nas quais os diretores eleitos prestavam contas aos rentistas, em sistemas de governança bem fundamentados.
Este sistema amadureceu nos séculos XVIII e XIX, como surgimento de formas “pré-adolescentes” de capitalismo, fortemente ligadas à Revolução Industrial, ao surgimento da doutrina liberal e à ascensão do capital como fator dominante das estruturas de produção e de acumulação. Entre as mais impactantes mudanças dessa época destacaram – se a produção em série e em grandes escalas (fortemente iniciado no período do Fordismo) , os acordos entre o os empreendedores, a organização de pools, a formação de trustes e cartéis e a primeira onda de fusões e aquisições da história, com a absorção de pequenas empresas pelas gigantes de cada setor.
Na virada para o século XX, já era bastante expressivo o número de grandes empresas na forma de sociedades anônimas, que financiavam o seu crescimento pela subscrição pública de novas emissões de capital. Ao mesmo tempo, companhias fechadas abriram o seu capital, já então por meio de ofertas em bolsas de valores. Aumentavam, assim, ao mesmo tempo, o número de companhias listadas nas bolsas listadas nas bolsas, o número de investidores e a canalização de poupanças privadas para o agigantamento das corporações.
O sistema acionário e as negociações nas bolsas de valores possibilitaram o crescimento massisso do mundo corporativo e a maior concentração do poder econômico pelas maiores empresas. Mas ao mesmo tempo, levou a outros três movimentos, em direção opostas: 1) a pulverização e a dispersão dos controles das companhias; 2) a despersonalização da propriedade; e 3) a separação entre a propriedade e a administração. Mesmo nas empresas de capital fechado ocorrem movimentos semelhantes, desencadeados pela morte de seus fundadores e pelos processos sucessórios decorrentes. Em todos esses casos, os “capitães da indústria”, controladores com maior parcela de ações e fundadores – proprietários foram substituídos por executivos contratados.
O divórcio entre a propriedade e a administração desaguou em divergência de interesses e em “conflitos de agência” – expressão decorrente de vários conflitos de interesses que se estabeleceram entre os acionistas passivos e distantes da companhias e gestores não proprietários, mas usufrutuários de fato do controle e do poder que passaram acumular.
Os conflitos então observados eram decorrentes de benefícios exagerados autoconcedidos pelos gestores, de diretrizes empresariais de alto impacto não condensadas com os acionistas, no limite, da fala de “decoro administrativo”, expresso em manipulações de resultados e na geração de demonstrações financeiras forjadas.
A contra face destas novas realidades foi despertar da governança.
A reação da governança aos questionáveis desvios observados nas companhias conduziu a mudanças internas nas estruturas de poder, complementadas por movimentos externos regulatórios e derivados de pressões ativistas, que passaram a ser exercidas por investidores institucionais e por organizações associativas de acionistas minoritários. Surgia então um novo conjunto de boas práticas, que mudaria o relacionamento entre acionistas e as companhias, os processos de constituição dos Conselhos de Administração e os modos de atuação da diretoria executiva. Em síntese: estabeleciam - se novos sistemas de relações entre acionistas, conselhos e diretores executivos. Os acionistas fizeram – se mais presentes, exigindo conformidade, transparência, prestação rigorosa de contas e foco na geração de resultados que atendessem à justa retribuição de seus investimentos.
E os executivos passaram a ser formalmente mais fiscalizados e avaliados, mantendo – se em seus postos pelos resultados de curto prazo proporcionados aos acionistas e pelas perspectivas de criação de riqueza em longo prazo, expressas por variações positivas do valor de mercado das companhias.
É exatamente a esse conjunto de movimentos, de natureza essencialmente fiscalizatória, que se atribuiu a expressão governança corporativa.
Sujeitos à regulação legal mais abrangente e mais severa, a governança corporativa cuidasse também de objetivos construtivistas. Estes passaram a ser exigidos por profundas mudanças no macroambiente mundial de negócios, entre as quais a desfronteirização de mercados reais e financeiros, a constituição de blocos econômicos, a ascensão de novos players globais e a vigor com que começaram a atuar os novos países industriais da Ásia.
E não forma só essas mudanças. Em ondas crescentes, passaram a ocorrer também reestruturações societárias, originárias de privatizações, de associações para controle consorciado, de fusões, de aquisições e de processos sucessórios. Os anos 1990 marcaram, em grande número de empresas familiares, de capital fechado ou aberto, a transmissão do controle e do poder entre gerações, as mudanças de controle acionário por processos sucessórios e a celebração de novos acordos de acionistas. E a maior parte desses movimentos ocorreu sob guarda chuva dos nossos processos e práticas de governança corporativa.

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